LETRAS

CONSELHOS DA BRISA

Luan Tavares

A quem quer consumar o sonho

E espera a sorte de papo pro ar

Cessa todo movimento

No primeiro vendaval


Oyá mandou dizer

Aos nove filhos seus

O raio é direção

A morte não espera 

O vendaval voltar à brisa que anuncia a tempestade 


Oya Koro Um Le Ogere Ge

Oya Koro Um La Oga Raga

Omobirin Oya Koro Um Le

Oge Rege

ENTRE A FORJA E A NAVALHA

Luan Tavares e Paulo Roberto Pitta

A força que cria, vibra

e forja a navalha.

Um grão de areia

Que muito enseja

Ver o céu se abrir

Não há de contentar com os pés presos ao chão.

Um devaneio,

Quase um delírio.

Quando o céu se abrir,                                            

Como vou caminhar com os pés presos ao chão?

O céu clareia

E a voz avisa:

Em morada de sonho,

As estrelas abrigam

E a estrada é o chão

Pelo vento que sopra e que corre                   

Por dentro, por cima, pelas águas

Onirê

Ogunjá 

A força que cria

Estrada leva pro mar

A força que cria, vibra

e forja a navalha.


Ogunté maré que move

Cobre, porta a espada, ajuda a trabalhar

Vai do grão, à pedra  

Da pedra, ao guia

Antes de chegar a guerra

Cabeça no chão


Espada de cobre 

Que corta o caminho 

Nascente da água 

Olho furacão 

Alfanje que guia

Ajuda e auxilia 

Banhado no mar 

Crescente ijexá


Ouço a canção pulsar por dentro

E conduzido à chegada

Antes da guerra

Cabeça no chão

E adentro a terra a rodar

BOCA QUE GIRA

Luan Tavares e Paulo Roberto Pitta

Divisa do tempo

Filho da noite

É a parte que gira, passeia e malandra.


Onde há passagem,

Revela-se Deus caminhando no asfalto

"Mêi" fora do eixo

É o eixo e a boca,

Um bocado do mundo.


Bem conhece e assiste

Quem sofre o milagre da fome

E, assim como eles,

Outros tentam fazer marginal.


Em toda porta, altivo

Atesta a vigilância

E, mesmo esquecido,

Certamente estará lá.


Divisa do tempo

É o filho da noite

É a parte que gira, gira, gira,

É o andaril.


Exú não é diabo,

Não é filho, 

Muito menos enviado do capeta.

De fato,

A luz que emana do fogo

Amedronta quem deixa a cabeça ser feita.


Mojubá,

Laroyê Exú,

Legbá, Pombo N'gila, Aluvaiá,

O senhor da encruzilhada

Caminhando no asfalto,

No alto, no falo

Ou onde você precisar.


Divisa do tempo,

Boca que gira.

Gira,

Que boca

Que divisa meu tempo, seu tempo.

Tempo de quem precisar.


Investigue as pegadas

Da frente, nos lado e das costas

Elevando a cabeça aos céus

E assentando na terra o seu próprio rastro.


Exú está parado em frente ao espelho

Conheça, viva, observe e verá .


Sentinela de guarda

Na rua é quem guia

Nos ceda licença pra andar pela estrada de Santa Luzia.


Sentinela de guarda,

Na rua é quem guia,

Nos ceda licença

Pra que se abram os portais de Orún.


Sentinela de guarda,

Na rua é quem guia.

E nas horas difíceis 

O sonho não pare em tropeço algum.

PRA RIO

Luan Tavares, Jad Venttura e Paulo Roberto Pitta

Toda beleza ela traz consigo

Carrega um espelho pra se embelezar

Guerreira ela é quando preciso

Mas o choro lhe cede grandeza de andar.


Se ate o mato sedenta seu rastro,

Quem poderá se conter?

Da fina riqueza amarela

q só o rio... pode ter!


Ora Yê Yê

Igual não há 

Ora Yê Yê

O axé de Oxum, Iya mi lewa


Oyá descobriu sua beleza no espelho de Oxum

Na água que cura, a destreza

O adorno do belo, na natureza

INSANO SUMO

Luan Tavares

Entre o canto do passarinho

E o zunido da cerraria,

Eu intercalo entre a senzala 

E o Estreito de Gibraltar.


Navego duzentos mares

Carrego meus crucifixos.

E o outro ainda me olha

E desfaz do meu caminhar.


Somos todos bichos,

Somos todos bando,

Ardor pelo sobreviver 

E sobrevivemos por esse comando.


Horizonte e raiz na pele

Não tem porque reclamar.

Horizonte de várias estradas

Qualquer que seja a entrada,

Deve-se respeitar.


- E quando faltar respeito?

Reaja, regojize, contraia, vitalize.

E pela lei de causa e efeito,

O caso ou ato "imperfeito"

Num estouro irá serenar.


Que serene

E despedace as amarras

D'uma moral de neoprene.

Como um corpo 

que desperta, dança e encanta

Guiado pelo sopro de liberdade

Como quem descobre a alma

Enquanto goza cruamente suas putas verdades.


Tal gozo deve ser o sumo

Desse novo ser insano,

Humano, sensato, perdido, conciso,

moderno, terno, eterno,

Interno, insosso,

Errante, navegante, amante, 

Essencial e infinitamente atemporal

mergulhar na sua alma musical, Ofá criou um álbum com o ritmo perfeito, compilou letras fortes e compôs melodias harmoniosas transcendentais. O(A) Ofá espera que você curta muito essas músicas incríveis! Fique à vontade para ouvir, compartilhar e enviar seus comentários.

ÂMAGO KETU

Luan Tavares e Paulo Roberto Pitta

Oxossi chegou

Com a caça na mão

Tudo para os filhos

Luta até o fim


Oxossi chegou

Com a caça na mão

fincando o pé na terra


Caboco de cobre

da flecha certeira

da força, flechada

direta e primeira

Caboco de cobre

da flecha certeira

Veste prateada

montado à cavalo, 

odé alaketu


No luar de prata,

O rastro veleiro 

Povo de aruanda venha nos valer


No luar de prata,

O rastro veleiro

Na treva, o amor vencerá.


Quando a cela aperta

E a vida piora

Lembre que a revolta é de dentro pra fora

Caboco de cobre

da flecha certeira

da força, flechada

montado à cavalo, 

odé alaketu

CONSAGRADA ABOLIÇÃO

Luan Tavares

Opachorô,

Os olhos partidos em lágrimas.

Na pele, o tambor avisará.


Orixá do princípio do mundo,

Do sopro da vida,

Da paz infinita,

Do vento no vazio,

Da voz na razão.

Orixalá, grande Orixá.


Nas pernas

E no corpo curvado com o tempo,

Resguarda o afeto, o amor

Igbin, o caramujo

Que decalca o firmamento.


Oxalá, nas costas, as voltas que o mundo dá.

Oxalá é o cais de nós, a consciência

Oxalá é a vaidade quando cai por terra

É o preto como preto, nunca mais ladrão

O ouro bem distribuído, a consagrada abolição

INAÊ

Luan Tavares e Paulo Roberto Pitta

Sal, flor de azul

Leve, insere a rota pilar

Na dor primeira,

Mãe de toda estrela que há.


Fervor de ondas que revira a terra

E volve o que não é do mar

Que encanta e aos olhos cantarão.


Salmoura, 

Alento, 

O todo e tudo que importa

Sempre chega e vai embora pelo mar.


Se ampara e prende a rédea 

Em berço de chuva

Embola a nuca, 

O peito e a fonte na espuma.


A-bra-ço, tesouro forte

Antes, durante e depois de navegar.

De levantar os braços,

De sambar no pé,

Dançar de alma e corpo solto

Até cair na luta.


Bater a testa e todos os compassos

Caducar os passos

Até chegar à Lua.

Onde encosto a cabeça 

No colo de minha mãe

E renasço em leito d'água.


Fervor de ondas que revira a terra

E volve o que não é do mar

Que encanta e aos olhos cantarão.


Satórerê

Sató-rêrê (2x)


Resguardo e calma vence 

A lança não me atinge

A proteção que vem do mar,

Livrar a dor

Do ventre, a escuridão.

Inaê, Yabá Ori.

O power trio Ofá é:

Luan Tavares (violão 7 cordas e voz), João Paulo Rangel (bateria) e Paulo Roberto Pitta (saxofone e sintetizador)


Álbum “Leito d’Água” (2021)

\\ Todos os arranjos são de autoria do power trio Ofá

\\ As letras de “Consagrada abolição”, “Conselhos da Brisa” e “Insano sumo” são de autoria de Luan Tavares

\\ As letras de “Âmago ketu”, “Boca que gira”, “Entre a forja e a navalha” e “Inaê” são de autoria de Luan Tavares e Paulo Roberto Pitta

\\ A letra de “Pra Rio” é de autoria de Luan Tavares, Jad Venttura e Paulo Roberto Pitta


Produzido por Edbrass Brasil

Gravado e mixado por Tadeu Mascarenhas no Estúdio Casa das Máquinas (Salvador/BA)

Masterizado por Isaac Neves

Direção de Arte por Andressa Mascarenhas

Fotografia (divulgação e capa) por Analu Abreu

Dança para ensaio fotográfico por Tatiana Schwartz

Vídeo por João Paulo Sebadelhe

Design por Maribê

Produção Executiva por Sabrina Fiuza

Comunicação por Marcatexto

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